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Lua Sefardita

Romance

Criar sim, mentir não.

Criar não é imaginação,

é correr o grande risco 

de se ter a realidade. 

Entender é uma criação.

 

Clarice Lispector, A paixão segundo G.H.

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Sinopse

Em Lua Sefardita, recrio a trajetória de Leonor Henriques, uma mulher cristã-nova presa pela Inquisição portuguesa em meados do século XVIII. Inspirada em documentos históricos reais e na descoberta de minha própria ancestralidade sefardita, entrelaço criação literária, espiritualidade e pesquisa para dar voz a uma mulher que a história registrou apenas em fragmentos.

Ao acompanhar Leonor por caminhos de amor, maternidade, perda, fé e resistência, adentro um universo de mulheres que sustentam a vida em silêncio: mães, filhas, irmãs e rezadeiras que transmitem saberes, memórias e formas de cuidado através das gerações. Entre aldeias de pedra da Beira Interior, estradas percorridas por almocreves, cozinhas, quintais e cárceres inquisitoriais, emerge uma história marcada pela perseguição, mas também pela força daquelas que encontraram maneiras de preservar a dignidade, os afetos e a própria identidade quando tudo estava ameaçado.

Nascido do encontro entre os arquivos da Torre do Tombo e aquilo que os documentos não puderam registrar, Lua Sefardita percorre os territórios da memória, da ancestralidade e do pertencimento. Como um rio subterrâneo que atravessa os séculos sem jamais desaparecer por completo, o romance busca as vozes que insistem em sobreviver ao esquecimento e celebra a coragem de mulheres que mantiveram acesa uma chama antiga, mesmo nos tempos mais escuros.

Mais do que um romance histórico, Lua Sefardita é uma homenagem à sabedoria anciã, às raízes invisíveis que nos sustentam e aos vínculos que continuam vivos muito depois de seus nomes terem sido apagados dos registros do mundo.

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Trechos do prólogo

Eu soube de tua existência por causa de um gesto de meu irmão, que buscava documentos e desenhava nossa genealogia. Encontrou mais do que papéis de reparação: descobriu o percurso subterrâneo de um rio. Água que corria oculta sob a terra – às vezes quase seca, às vezes borbulhante, mas sempre viva.

Teu nome revelou um passado sefardita – e um aprisionamento. Silenciei. Houve talvez medo de remexer em algo tenebroso. Quem sabe receio de encarar o cárcere de minha própria alma – prisão da qual só eu própria posso me libertar. E como Zênon, me pergunto: Quem seria suficientemente insano para morrer sem pelo menos ter visto a torre de sua prisão?

Trecho do Capítulo 1

As brumas se dissipam

Durme, durme hermoso hijiko

Durme, durme sin ansia y dolor

Canção sefardita

Reconheço agora tua presença.

Sinto tanto luto, tanta solidão...

e, ao mesmo tempo...

A culpa... é como se estivesse enfim desvanecendo.

Um acalanto suave me toma a mão...

e me diz que é chegado o tempo de olhar para o que vivi

com outros olhos... outro coração...

Não é uma história feliz.

Mas aqui... neste lugar onde estamos...

sinto que conseguirei contá-la com sobriedade.

Nós, pedras…

Quando alguém nos ergue,

ergue tempos primevos …

ergue o Jardim do Éden…

ergue biliões de lembranças na mão

que não se dissolvem no sangue…​

Poema “Coro das Pedras”, de Nelly Sachs,
tradução de Paulo Quintela

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