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Caderno de campo

Em Lisboa, o terror percorreu meu corpo quando andei até o altar da Igreja de São Domingos, local do auto-de-fé que condenou Leonor e seus filhos. 

Quando estive em Castelo de Vide, entrei sozinha no Museu da Inquisição. Havia silêncio demais, como se o prédio estivesse respirando. Os bonecos de cera – presos, interrogados, torturados – eram tão reais que cheguei a duvidar se eram estátuas ou atores que haviam decidido parar o tempo. Um deles tinha gotículas de suor na testa. Juro. Era como se eu tivesse chegado atrasada para um espetáculo que esperava apenas o meu olhar para continuar.

Há um portal no caminho encantado entre Monsanto e Penamacor. Lá um rebanho de cabras cruzou a trilha. Um senhor sisudo caminhava com calma atrás delas. Tomou o tempo que conseguiu para conduzir as cabras sem pressa. E eu fiquei ali, dentro de um carro moderno, vendo  uma cena do  passado.

Em Penamacor, entrei com tristeza na Igreja de São Tiago, lugar de silenciamento de Leonor. O silêncio me dizia algo e não me senti sozinha,

Caminhando por Penamacor com meu irmão, algo inesperado aconteceu. Ele e eu havíamos combinado de fazer uma oferenda à Leonor e carregávamos uma garrafa com vinho para despejar em sua terra. Meu irmão nunca fora dado a essas coisas. Talvez por isso quando ele mudou a direção de nosso caminho eu respeitei sua vontade. Ele tinha os olhos marejados e eu sentia a força do que estava acontecendo e me deixei conduzir. Ele continuou andando devagar, como se escutasse algo. Depois virou numa rua estreita que eu não teria escolhido. Seguimos sua intuição em silêncio até chegar em um casa antiga da judiaria. 

 

 

Em Coimbra visitei o Pátio da Inquisição, local de cárcere que se transformou em museu e em centro de artes. A arte ficou com a palavra final.

Na Casa da Memória da Medicina Sefardita, em Penamacor, prestei minhas homenagens aos cientistas, com os quais tenho parentesco, principalmente  o filósofo, médico com quê de psicólogos e pedagogo António Nunes Ribeiro Sanches, primo de Leonor.

Em Belmonte fui ao Museu Judaico e passei pelas ruas, encontrando a casa de uma rezadeira que, como Leonor, foi condenada à prisão por praticar o cripto-judaísmo com outras mulheres corajosas que se arriscaram à fogueira.

Chegando como pesquisadora novata na Torre do Tombo em Lisboa, digamos que senti necessidade de recorrer à gentileza típica do interior.

 

Enviei um e-mail solicitando uma visita ao Arquivo Distrital de Castelo Branco. Os servidores do Arquivo pediram que eu telefonasse e foram gentis em combinar comigo o encontro com uma genealogista durante a minha visita. Lá busquei pelo nome de Leonor nos registros digitais. O encontro com a genealogista octogenária que dirigia uma moto eu conto no livro Cartografia.

Em Monsanto, terra de parentes que judaizavam com Leonor, fiz novamente o contato com as pedras e percebi que a energia desse lugar regenerou-se pelas formas e caminhos inesperados que a natureza moldou. 

Em Penamacor, na velha judiaria, li uma oração antiga resgatada por Antonieta Garcia no livro Sagrado Criptojudeu. Transportada pela evocação “ao céu vá, ao céu chegue”, essa prece pedia liberdade, falava de Daniel, que perseguido, manteve sua fé e orou, preso na cova dos leões. Soprava o desejo de que, mesmo no cerco de homens de juízo mau e duro, fosse possível alcançar a boa ventura, as luzesdo ouro e da prata, a beleza e a formosura. 

Havia anos que eu e meu irmão André fazíamos uma promessa: visitaríamos a terra de nossos ancestrais juntos.

 

Antes de chegar a Penamacor, paramos em Castelo Branco para visitar a Casa da Memória Judaica. Foi ali que André reparou, sob o retrato de Manoel Joaquim Henriques de Paiva, o filho do irmão de Leonor, numa inscrição simples: viveu na casa de sua família na Rua do Relógio, nº 15. Saímos imediatamente do museu em busca daquela casa. 

 

 

Na Feira do Livro do Porto encontrei fontes importantes e me regozijei em um piquenique regado à leitura.

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Nós, pedras…

Quando alguém nos ergue,

ergue tempos primevos …

ergue o Jardim do Éden…

ergue biliões de lembranças na mão

que não se dissolvem no sangue…​

Poema “Coro das Pedras”, de Nelly Sachs,
tradução de Paulo Quintela

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